quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Trivialidade


Há alguns dias eu estava com um amigo na livraria de um shopping center, em busca de um presente para um outro amigo. Loja cheia, com mezaninos cheios e com a cafeteria igualmente lotada, coisa que definitivamente não é empecilho para dois alucinados por café. Escolhemos nossos livros, nos dirigimos até o balcão, fizemos nosso pedido e, enquanto esperávamos, Juliano avistou uma mesa com três lugares ocupada por apenas uma pessoa.


- Com licença. Você se importa de dividir a mesa com a gente?

O rapaz olhou para a cara do meu amigo um tanto surpreso, não sei se pela naturalidade com que a pergunta havia sido feita ou se por ser uma vítima estreante naquele tipo de approach – afinal, basta olhar para o lado onde quer que se esteja para notar uma infinidade de “solitários por força do hábito”: no cinema, nos restaurantes, lanchonetes, ônibus, bancos de praça... o fato é que, refeito da surpresa, o tal rapaz concordou em dividir conosco sua mesa-para-três-ocupada-por-um.

Confesso que me sinto pouco à vontade de me sentar com desconhecidos, e costumo resolver esse pequeno problema da forma mais simples possível. Apresentando-me. Foi exatamente o que fiz.

- Muito prazer, Flávia. E este é Juliano – e ambos, meu amigo e eu, estendemos a mão com um sorriso. O rapaz retribuiu na mesma moeda e, como há poucas coisas no mundo que um sorriso genuinamente simpático não resolva, em poucos minutos a conversa fluía como se fôssemos três velhos conhecidos. Entre goles de café, biscoitinhos amanteigados, gargalhadas, dicas gastronômicas, impressões sobre viagens e afins, 50 minutos se passaram num piscar de olhos. Nos despedimos de Elias – esse era o nome do moço – com abraços e satisfeitos por tê-lo conhecido, ainda que de forma tão inusitada.

- Cara bacana, né?
- É.
- Será que a gente ainda se vê?
- Não sei, quem sabe... o mundo é pequeno, né?

- É... – e, de braços dados, também deixamos a livraria, com a sensação de que levávamos conosco muito mais do que livros na sacola e um bom café no paladar.

E o que teima em não me sair da mente desde então é a expressão de surpresa no rosto do Elias, quando nos convidamos para dividir com ele sua mesa-para-três-ocupada-por-um. E me causa um certo desconforto, uma estranheza triste e reflexiva, a conclusão de que somos todos “Elias” em graus variáveis de solidão por opção. Talvez a correria do cotidiano tenha feito germinar nas pessoas um instinto subliminar de autopreservação diante da alucinada existência contemporânea, e isso tenha nos afastado uns dos outros a ponto de nos transformar em ilhas cercadas de ilhas por todos os lados. E nos esbarramos sem nos tocar, e nos olhamos de soslaio sem nos enxergar, e nos falamos sem nos dizer coisa alguma.

E assim, sem perceber, nos distanciamos de nossa essência gregária, e convivemos pacificamente com a ausência do outro, sem atentar para o fato de que essa é também uma espécie de “auto-ausência” – pois, ainda que neguemos consciente ou inconscientemente, carregamos conosco, ao longo da vida, a necessidade atávica de compartilhar, de dividir. A questão do espaço é relativa e, de certa forma, insignificante: há quem viva sua “vida-para-vários-ocupada-por-um” até mesmo no ambiente familiar.

Quem sabe um dia eu reencontre o nosso Elias em uma dessas esquinas da cidade – ou no cinema, ou num restaurante, ou num banco de praça, ou quem sabe naquela mesma livraria. Se o mundo é mesmo pequeno como dizem, não duvido que tornemos a dividir uma mesa e alguns bons minutos de nossas vidas. Enquanto isso, continuo acreditando que todo e qualquer lugar vazio é candidato em potencial para ser preenchido. E, igualmente, continuo acreditando que vale a pena preencher os meus – e os dos eventuais “Elias” que aceitarem dividir comigo suas tantas “coisas-para-muitos-ocupadas-por-um”.

domingo, 20 de janeiro de 2008

QUEBRANDO AQUÁRIOS


"Os peixes no aquário não param nem um segundo de nadar. Isso me inquieta. Além do mais acho esse peixe de aquário um ser vazio e raso. Mas deve ser engano meu, pois não só eles devoram a comida como procriam: e é preciso ser matéria viva pra isso. O que me intriga é que, pelo menos nos peixes de aquário, o instinto falha: eles comem até estourar, não sabem parar, eis um peixe morto. São seres aterrorizados quando pequenos, perigosos quando grandes. Além de pertencerem a um reino que não me é familiar, o que de novo me inquieta."
Clarice Lispector





QUEBRANDO ÁQUÁRIOS


Quando criança meus pais raramente me deixavam ter algum animal de estimação... Então quando me deparei com o aquário da minha tia, nossa aquilo me atraiu de imediato... Eu tinha uns 3 anos, e nessa idade, criança é fogo! Eu queria brincar com os peixinhos... E lá estava eu, dando "peteleco" no vidro, colocando os dedos na água e então, acho que pensei que poderia pegá-los enfiei a mão dentro do aquário e ele virou sobre mim.... Conclusão: me molhei todo, o aquário quebrou e os peixes morreram... Minha tia ficou P ...da vida e brigou comigo, e minha mãe ficou P ...da vida com ela porque eu era criança e não sabia ao certo as coisas que podia ou não fazer...

Assim como uma criança, em alguns momentos da nossa vida não sabemos se podemos ou não mexer, dar petelecos, sacudir o aquário ou os peixes... Mas depois que vemos o resultado de nossas ações e suas conseqüências, de alguma forma aprendemos que não precisamos mais passar ou fazer o que fizemos, porque certamente o resultado será desastroso ou não!

Durante minha vida quebrei muitos "aquários"... Mas cada um em situações diferentes. Mas não os mesmos.

Às vezes a gente precisa quebrar o aquário, matar os peixes para aprender uma lição... Outras vezes nos damos conta de que podemos apenas olhá-lo, admirá-lo e voltar no dia seguinte ou não...

Mesmo sabendo que tenho um caminho inteiro pela frente, eu tento não virar um colecionador de aquários quebrados... E você?


[Edu Grabowski]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

NASCENDO :ou: PARINDO PALAVRAS

Palavras precisam nascer. Palavras precisam perder o juízo.
Precisam queimar em têmpera macia. Precisam sofrer na hora do parto.
Palavras precisam chorar quando dóem. Palavras precisam morrer!

Palavras precisam existir, precisam tocar, precisam pousar!
Palavras precisam de horizontes, de sol. De alimento e descanso.
Precisam de perfume e remanso. Palavras precisam aprender a voar!

Precisam de voz, de entrega e de cura. Precisam de tesão, desejo e fartura!
Palavras precisam amar. Palavras precisam de magia e fúria.

A minha e a tua!

Por Van Luchiari ₢